Ausstellungen – Exhibitions

Pelas Sombras,
Museu da UFPA, Belém, 2017

 

TUDO TÊNIS,
Museu do Estado do Pará, Belém, 2016

 

TRANSPIRAÇÃO,
Museu Nacional da República, Brasília, 2016

 

Private Standards,
Galerie im Parkhaus Treptow, Berlin, 1999

 

HOBBY UND HYBRIS/The Intimate Space Camp,
Galerie Urban issue e.V., Berlin, 1999

 

“Gott würfelt nicht”/“Deus não joga dados”: será mesmo?

Acaso e necessidade, determinismo e liberdade, são pares conceituais que configuram, de algum modo, nossa experiência do mundo. Eles invocam, sem cessar, a maneira pela qual respondemos à presença do arbitrário, daquilo que é apenas provável, do que não podemos afirmar com exatidão ou certeza. Eles criam um misto de estranha familiaridade, uma espécie singular de experiência do Unheimlich, na qual o medo, o terror, a angústia se configuram, se armam, ora se fortalecendo, ora baixando as armas, diante daquilo que não podemos prever. O que nos é “familiar” – um mundo ordenado, organizado, explicado por uma certa lógica ou pelas leis da natureza – desaba inteiramente na estranheza provocada por um encontro fortuito, inesperado, pelo que há de radicalmente súbito (plötzlich) na existência. Albert Einstein expressou sua crítica ao acaso, à teoria da probabilidade de Heisenberg, por meio da célebre frase “Deus não joga dados com o universo”.

Martin Juef, ao contrário de Einstein, nos diz “Alles Tennis”, “Tudo tênis”. Ao “würfeln”, ao jogar, ao lançar, do físico, ele opõe, implicitamente, um outro jogo, Spiel, um outro jogar, spielen. A amplitude semântica desse outro verbo, spielen, nos remete a dimensões fundamentais da existência humana, todas elas reunidas e ligadas pelo jogo, pela brincadeira: a experiência da criança que brinca, a do ator que representa e a do artista que cria. Brincar, representar, criar, certamente também possuem suas regras, não se trata de uma espécie de jogo arbitrário, onde tudo vale. Mas, de experiências cuja única regra a seguir é a de que se trata sempre de um… jogo!

Entretanto, Juef não pretende apenas opor-se, confrontar-se com o físico. Seu jogo, sua encenação, lança os dados para outras direções. Afinal de contas, todo jogo possui um cenário, seja uma simples mesa cercada de cadeiras, seja um grande estádio de futebol ou uma quadra de tênis, na final de um Grand Slam. O cenário de Juef, entretanto, ou melhor, a “armação”, o “dispositivo”, a “configuração”, para retomar o conceito heideggeriano de Gestell, tão importante no seu trabalho, é nada mais, nada menos, do que o mundo que é nosso contemporâneo: quem joga os dados, afinal de contas? Quais as regras, se é que elas existem, que presidem esse jogar? Supondo que essas regras existem, que sejam claras e distintas, está o acaso absolutamente suprimido? Ou, ao contrário, não é justamente o acaso do jogo, a regra?

O que é intrigante nas imagens de Juef é justamente o fato de que o cenário é suprimido, para dar lugar aquele ou aquela que joga. E a supressão do cenário coloca essas figuras numa posição transcendente, como se elas passassem a ocupar, na nossa realidade e no nosso imaginário, o lugar de Deus. Daí a pergunta: será mesmo que Deus não joga dados?

Ernani Chaves
Professor titular de filosofia na UFPA